Copa e Olimpíadas trazem mais perdas que ganhos para economia

Dia 2 de outubro de 2009. Enquanto milhares de pessoas comemoravam, no Brasil, a eleição do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, do alto de uma das salas da Universidade de Chicago _uma das cidades que disputava com o Rio a realização das Olimpíadas_, um norte-americano também fazia a festa. Embora confesse ser um admirador da “Cidade Maravilhosa”, a alegria do Professor Allen Sanderson estava muito mais relacionada à economia do que com qualquer sinal de antipatriotismo. Para ele, eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo são um desastre para as contas dos países-sede. “Em geral, as cidades que recebem a Copa e os Jogos Olímpicos perdem muito dinheiro”, diz. “Os investimentos geram taxas de retorno menores que o montante investido”, afirma o professor.

Sanderson dá aulas sobre Economia do Esporte na Universidade de Chicago e é autor de diversos artigos sobre o impacto do esporte na economia. Em entrevista ao iG, por e-mail, Sanderson reforça a posição contrária à maré otimista dos Jogos no Brasil e defende que os investimentos no País deveriam acontecer de forma mais racional e independente de qualquer evento. Bem humorado, o professor não deixa de desejar boa sorte ao Brasil, mas torce para que os Jogos sigam longe de Chicago por um bom tempo. Confira a íntegra da entrevista:

iG: O senhor gostou da vitória do Rio de Janeiro sobre Chicago na disputa pelos Jogos de 2016?

Allen Sanderson: Estou feliz que o Rio ganhou e Chicago perdeu em Copenhague (cidade onde foi anunciada a sede dos Jogos de 2016). Visto que os Jogos Olímpicos tendem a fazer com que as cidades percam muito dinheiro, eu prefiro que seja gasto o seu dinheiro que o meu (risos). Brincadeiras à parte, se Chicago tivesse sido eleita como sede dos Jogos de 2016, nós pagaríamos por isso tudo com dinheiro público. Esta é a razão pessoal e financeira pela qual eu não quero que Chicago seja uma cidade-sede.

Então, o senhor é contra a tese de que eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas geram crescimento econômico aos países-sede?

Em geral, as cidades ou países que recebem a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos perdem muito dinheiro, pois são muito pobres e os investimentos geram taxas de retorno menores que o montante investido. Seria melhor aplicar esses recursos todos de forma mais sábia. Mas o Brasil, por exemplo, vai ampliar consideravelmente os investimentos em infraestrutura, um setor crítico do País atualmente. Como isso pode ser considerado ruim?

Infraestrutura é um termo agradável para os ouvidos. Como alguém poderia ser contra os investimentos em infraestrutura? Mas essa pode ser uma desculpa para gastar dinheiro de forma tola. Tudo depende de quais projetos serão escolhidos. O Brasil e o Rio de Janeiro estarão mais bem servidos se os compromissos para melhoria em infraestrutura não dependessem da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Estamos falando de investimentos de longo prazo, não em soluções de curto prazo para uma festa. O rabo não pode abanar o cachorro.

Os casos de Barcelona-92 e Pequim-2008 não podem ser usados como exemplos de que os Jogos beneficiam a economia de um país?

As melhorias em Barcelona foram muito importantes, mas estavam muito mais relacionadas com a entrada da Espanha no Mercado Comum (agora chamada de União Europeia) do que com os próprios Jogos Olímpicos. Você não mencionou, por exemplo, Montreal-76, Sydney-2000, Atenas-04 e nem Londres-12. Todas as quatro cidades perderam ou perderão uma montanha de dinheiro por causa dos Jogos. A atual crise da Grécia, certamente, não está alheia aos altos gastos públicos que eles tiveram com as Olimpíadas. A China também poderia ter gastado melhor os US$ 40 bilhões que foram investidos nos Jogos. As principais instalações utilizadas em 2008 estão vazias agora, como aconteceu também em Atenas e em Sydney. A perda de recursos continua.

O que o senhor tem a dizer para os que estão otimistas com a realização da Copa e dos Jogos Olímpicos no Brasil?

Boa sorte! Espero que ambos os eventos acabem bem para o Brasil. Mas, se eu tivesse de fazer uma aposta, colocaria meu dinheiro em coisas que não vão bem na economia.

Uma das vantagens do Rio é que a cidade será palco de dois importantes eventos num curto espaço de tempo. Isso vai permitir com que os gastos sejam reduzidos. O que prejudica os países-sede é que eles não são capazes de conter os gastos excessivos. Seguem com gastos exorbitantes em projetos de valor duvidoso a longo prazo. É necessário apaziguar os ânimos dos grupos que têm interesses próprios e querem ficar com a maior fatia do bolo.

É possível calcular o rombo que os Jogos trarão aos cofres públicos brasileiros após 2016?

Provavelmente. Mas eu não tenho dados ou estimativas para passar. O Brasil erra ao apontar a Copa e as Olimpíadas como fatores impulsionadores de crescimento? Sim, mas é possível que os jogos representem uma oportunidade de boa publicidade para o País, na medida em que o Brasil terá a atenção do mundo sobre as coisas maravilhosas que acontecem aí e na América do Sul. Essa foi a esperança da China em 2008. Mas não funcionou para Atenas, nem para Sydney. Certamente não funcionará com Londres, já que as pessoas já estão suficientemente informadas sobre Londres e a Inglaterra.