Corruptos são (quase) todos: uns pilhados, outros “no armário”

“Nos países pobres, os níveis de corrupção podem ser a linha divisória entre a vida e a morte, quando dinheiro para hospitais ou água potável está em questão”.

Huguette Labelle, presidente da Transparency International
 
Vamos e venhamos, mas esse escândalo do governador José Roberto Arruda, embora seja o mais espetaculoso já exibido à distinta platéia, ainda vai dar muitos panos para as mangas. O que tem de gente envolvida não está no gibi. São figurões de vários partidos, de vários Estados e de todos os podres poderes. Porque o governador do Distrito Federal foi por demais esperto com as patotas amigas, agindo como um mafioso que comprometeu meio mundo para que a casa não caia só sobre sua cabeça. Portanto, espera que seus amigos ocultos movam céus e terra para impedir o desmoronamento. A bem da verdade, nada do que temos visto nesse seriado de filmes exibidos é original. A corrupção da classe política e a ação deletéria dos empresários que lidam com o erário, superfaturam e fraudam é igual do Oiapoque ao Chuí, em todos os níveis e em todos os poderes. A novidade no escândalo da capital federal foi o aparecimento de um corrupto totalmente destrambelhado, um “operador” mais sujo do que pau de galinheiro, que já havia sido pego com a mão na massa desde o governo igualmente corrupto de Joaquim Roriz. Crente que garantiria a impunidade com a documentação de suas tarefas na teia da corrupção e convencido de que seria descartado e ainda viraria bode expiatório, ele reuniu 300 horas de flagrantes, numa inesperada coletânea do mau comportamento. Por conta de seu comportamento surpreendente, temos um relato redondo da corrupção em suas várias etapas e formas. É um retrato iluminado que espelha a atuação da quase totalidade dos políticos e brasileiros, sejam da direita, do centro, da esquerda ou de coisa nenhuma. Políticos só, não. De todo esse universo farisaico que está por cima da carne seca.
 
Se gritar “pegar ladrão, não fica um, meu irmão”.

Se o Ministério Público e a Polícia Federal forem fundo, estarão dando de cara com corruptos e ladrões de norte a sul, de leste a oeste. Porque a capital federal irradia corrupção, favorecimentos, lobismos, picaretagem, ladroeira por todos os poros, 24 horas por dia. É lá que a grana ganha musculatura, por ser da natureza do centro imperial das maiores e mais irrecorríveis decisões. Infelizmente, o quadro de desmoralização das instituições é de tal abrangência que nos edifícios oficiais se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão (Bezerra da Silva tinha razão).A grosso modo, podemos catalogar dois tipos de corruptos – a minoria já pilhada com a mão na massa e a grande maioria ainda oculta no armário. Não estou exagerando. Hoje em dia o exercício da atividade pública está invariavelmente associado ao mais contundente dos tráficos, que faz dos políticos inescrupulosos mandatários de aluguel. O mais triste é que essas práticas de corrupção podem ser vistas a olho nu, mas ninguém está nem aí. Os delinquentes oficiais não escondem a corrida à propina, todo mundo sabe como a banda toca, mas o país inteiro parece à espera de sua própria oportunidade de tirar uma lasquinha. No dia 2 de dezembro, a Polícia Federal deu uma dica sobre a natureza das relações com os podres poderes ao informar que só na construtora Camargo Correa a “Operação Castelo de Areia” apreendeu uma planilha com mais de 200 políticos envolvidos em seu esquema de propinas. Nessa relação, achada em poder do diretor Pietro Francesco Giavina Bianchi, há deputados federais, secretários municipais, conselheiros e ministros de Tribunais de Contas.

Mensalões e mensalinhos por todo o país

Você provavelmente não sabe, mas há “mensalões” e “mensalinhos” em todos os poderes e em todos os níveis. Empresas de ônibus e empresários da construção civil, muitos destes conhecidos grileiros, costumam disponibilizar fartos recursos para nossos legisladores locais, impedindo que se adote qualquer providência que fira seus interesses. Ou você acha que a aprovação a toque de caixa de novos gabaritos para a região dos jogos olímpicos de 2016 aconteceu só pelos belos olhos azuis dos interessados? Nesse ambiente de corrupção ampla, geral e irrestrita estão envolvidas também falsas vestais de nossa mídia. Quando fazem uma denúncia, ela tem endereço certo e não pretende esmiuçar a teia de negócios espúrios. Ou você não viu que está deliberadamente direcionada essa série de reportagens sobre favorecimentos na Justiça, limitada exclusivamente a um único desembargador do TJ-RJ? Veja o caso das milícias aqui em nosso Estado. Elas têm mais de trinta anos e ninguém as questionou enquanto tratavam apenas de cobrar proteção nas comunidades. Muitas estão por aí, intocáveis. Mas as que resolveram se meter com os donos dos transportes, incrementando as vans, e feriram os interesses da tv a cabo, patrocinando “gatonetes” foram além dos seus limites toleráveis e entraram no pau.

As raposas e o galinheiro

Este país é tão vilipendiado que as revelações contundentes sobre mais um reduto da propina ganham os contornos de um “reality show”. Daqui a pouco, entra outra fita e não se fala mais nisso. Pior: é bem capaz desses gatunos de colarinho branco voltarem ao proscênio como bajulados protagonistas. Que o digam Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney. Voltam e você vai levando com a mesma condescendência dos aspirantes ao próximo butim. Ou quando esperneia costuma ouvir o galo cantar, sem saber aonde. E tudo ao som da sonata do maior cinismo, tendo à batuta aquele que não se peja em minimizar evidências gritantes. Como se querendo dar uma de magnânimo, de olho no próximo escândalo, que poderá estourar entre os seus. Atochados pelo festival de corrupção explícita e indisfarçável, os falsos bonzinhos desse filme de terror moral acenam para remédios com as fórmulas de reles placebos.

Reforma política? Quem vai fazer? Esses quase 600 picaretas que chegaram lá pelo uso de expedientes escusos, do uso da máquina pública, gastando fortunas cem vezes maiores do que receberão de subsídios em 4 anos de mandato, e da fraude que pouquíssimos ousam denunciar? Até os protestos caracterizam uma outra variável na separação dos corruptos: há os dos nossos partidos, para os quais fechamos os olhos, e os adversários, sobre os quais baixamos o cacete. Onde estavam esses garotos que ocuparam a Câmara Distrital quando, ali mesmo na deslumbrada metrópole, estourou não faz muito o escândalo do “mensalão”, mais opulento, que serviu de palco para meia dúzia de falsos mocinhos, encerrou temporada e não pôs ninguém na cadeia? Outro dia, escrevi o roteiro da fraude eleitoral. Foi a matéria que teve o menor número de comentários. Será que ninguém vê que tudo começa na farsa de um sistema de votação blindado contra toda e qualquer fiscalização e auditoria? Em verdade, para onde quer que lancemos nosso olhar só nos depararemos com cenas de indecência explícita. Infelizmente, mesmo vendo tanta ignomínia, a maioria dos cidadãos prefere o silêncio dos omissos, deixando-nos a sós, como jurássicos e quixotescos espadachins de valores em desuso. Meu Deus, como tudo isso é assustador!